mai 17

A Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero

por Frei Betto, em Amai-vos

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.

No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”…).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).

No 60º aniversário da Decclaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama…).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados.  A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.

Veja mais sobre o assunto na matéria da Revista Carta Capital [aqui]

 

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abr 27

Professor Faustino Teixeira participa de banca e faz palestra na Unicap nesta sexta-feira

O professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), Faustino Teixeira, estará na tarde desta sexta-feira (27) na banca de dissertação do Mestrado em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco. A defesa do mestrando Maruilson Menezes de Souza será às 15h, no anfiteatro do 3º andar do bloco G4. Mais tarde o professor estará das 19 às 21h, no Auditório do CTCH (1º andar do bloco B da Unicap), fazendo palestra sobre “O irrevogável desafio do Pluralismo Religioso”. A palestra será organizada pelo Observatório das Religiões do Mestrado em Ciências da Religião da Unicap. O professor Faustino Teixeira possui mestrado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1982), doutorado e pós-doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (1985 e 1998). O seu campo de atuação acadêmica e de pesquisa relaciona-se aos temas da teologia das religiões, diálogo inter-religioso e mística comparada.

 

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abr 04

Igreja X Estado

Sociedade debate a imposição da religião cristã em escolas públicas e tribunais e a intolerância às crenças minoritárias

Por Natália Martino para ISTOÉ 

 

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CATEQUESE
Cada estado tem uma legislação própria sobre o ensino religioso, mas
todos devem respeitar a Constituição, que prega que a liberdade de crença

Em 1889, os republicanos que acabaram com a monarquia no Brasil pensaram que também haviam conseguido separar a religião do Estado com a sua nova constituição. Naquela data, o País se tornara oficialmente laico. No entanto, mais de um século depois ainda não é isto que se vê na prática. Aulas de ensino religioso são ministradas em escolas públicas, crucifixos têm lugar de honra em salas de tribunais, estudantes são obrigados a rezar antes das aulas e testemunhas são convocadas a jurar sobre a “Bíblia” em julgamentos. Somente nas últimas semanas, vieram à tona casos que mostram como a questão da presença da fé em ambientes públicos está viva e suscita debates na sociedade civil, opondo setores que são contrários e favoráveis a essa intervenção. No município de Ilhéus, na Bahia, por exemplo, os estudantes da rede municipal de ensino têm sido obrigados a rezar antes das aulas desde o dia 13 de fevereiro, o que já provocou uma reação do Ministério Público, que investiga a legalidade da “Lei do Pai-Nosso”. Num movimento contrário, o Tribunal de Justiça (TJ) do Rio Grande do Sul retirou os crucifixos de suas salas de julgamento. Em Brasília, o Supremo Tribunal Federal (STF) avalia argumentos de instituições civis ligadas à educação e aos direitos humanos sobre a inconstitucionalidade do ensino religioso confessional, que garante espaço privilegiado para determinadas crenças, de acordo com as preferências dos alunos ou dos seus responsáveis. “Essa possibilidade estava explícita nas Constituições de 1934 e 1946, mas foi derrubada na atual, de 1988, e isso por si só já deve ter algum significado”, diz o ministro do STF Celso de Mello. O receio é de que o espaço público sirva a pregações religiosas.

Incomodados com essa distorção, entidades estão organizando manifestações públicas pelo Estado laico em três capitais – em Porto Alegre aconteceu na quinta-feira 22, no Rio de Janeiro está marcado para 10 de abril e em São Paulo para o dia 14. De acordo com Salomão Ximenes, advogado da ONG Ação Educativa, em muitas situações a determinação constitucional de que o ensino religioso seja facultativo (artigo 210) não tem sido respeitada. Caso do Estado de São Paulo, que permite que o conteúdo da disciplina seja transversal – com isso, a religião fica diluída em várias matérias, impedindo o aluno de escolher ou não assistir às aulas. Há casos também de cerceamento de liberdade de crença. De acordo com a Relatoria do Direito Humano à Educação, que está investigando casos de intolerância religiosa em escolas do País, os adeptos das denominações africanas são os que mais sofrem. Da Escola Estadual Antônio Caputo, em São Bernardo do Campo (SP), vem um dos exemplos dessa intolerância. Magno Moarcys Silveira, 15 anos, praticante do candomblé, passou a sofrer bullying depois que declarou à professora de história que não queria mais ouvir sua pregação bíblica, que acontecia durante cerca de 20 minutos antes das aulas. “Quando fui conversar com a professora, ela foi agressiva e disse que era parte da sua didática”, diz Sebastião da Silveira, pai do jovem, que fez um boletim de ocorrência na semana passada. “A diretora só se manifestou pedindo desculpas para o meu filho quando eu disse que levaria o caso às últimas consequências.”

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LADAINHA
Em Ilhéus (BA), os alunos da rede municipal são obrigados
a rezar o pai- nosso. Abaixo, no STF, o crucifixo católico

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Nos tribunais, o que se constata é uma abundância de citações cristãs em sentenças cuja base deveria ser apenas a lei. Em 2008, por exemplo, o juiz Éder Jorge, de Goiânia (GO), recomendou que Vilma Martins, condenada por sequestrar duas crianças, frequentasse durante a condicional um culto cristão, o que, segundo ele, a ajudaria a se recuperar. “É um argumento preconceituoso”, diz Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. Para Naiara Malavolta, da Liga Brasileira de Lésbicas, que fez uma representação junto ao Tribunal de Justiça (TJ) do Rio Grande do Sul para tirar os crucifixos, o primeiro passo para diminuir essa distorção seria retirar os símbolos. “Eles dão legitimidade aos agentes do Estado para seguir os preceitos daquela crença”, diz. Mas nem dentro do TJ-RS há unanimidade. O desembargador Carlos Marchionatti, por exemplo, defende a presença do crucifixo. “Ele nos lembra do mal que um processo às margens da legalidade, como o de Cristo, pode causar”, diz. Enquanto o ensino religioso não é julgado, o ministro Celso de Mello adverte: “Precisamos vigiar para que a laicidade do Estado seja mantida se não quisermos que heresia volte a ser crime.”

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mar 27

SOBRE A MORTE E O MORRER

Por Rubem Alves

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” Avida é tão boa! Não quero ir embora…

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: “E fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas pobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida seja só isto…”

Da. Clara era uma velhinha de 95anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…”

Mas tenho muito medo de morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados em meu corpo, contra a minha vontade, já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama – de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir o seu dever; debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. Aliteratura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida“ é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano?

O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os zigue-zagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados “recursos heróicos” para manter vivo o paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Li­berta-me”.

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. Efoi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000 desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei…”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. Amorte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A“reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. Amissão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe das UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietá” de Michelângelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

 

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mar 20

“O Brasil é uma potência religiosa global”

José Casanova

Um dos principais sociólogos da religião no mundo explica a crise de fé da Europa, a politização da religiosidade nos EUA e o preconceito contra os ateus

por Rodrigo Cardoso para ISTOÉ

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MUDANÇA
Para Casanova, o desenvolvimento econômico está
fazendo a religiosidade, proibida pelo Estado, voltar à China

Pos 61 anos, José Casanova é um dos mais respeitados sociólogos da religião na atualidade. Autor do clássico “Public Religions in the Modern World” (de 1994), no qual trata da ligação entre o afastamento das pessoas das religiões e a modernidade, o acadêmico nascido na Espanha e naturalizado americano é professor titular do departamento de sociologia da Universidade de Georgetown, em Washington, nos Estados Unidos, e diretor do programa sobre “globalização, religião e o secular” do Center Berkley, na mesma instituição. Casado e com um filho, Casanova esteve no Brasil, no início do mês, para ministrar aulas magnas, ter encontros com pesquisadores e fazer palestras públicas em universidades. No período em que esteve no País, concedeu uma entrevista à ISTOÉ, na qual traçou um panorama da engrenagem religiosa no mundo atualmente – secularismo e ateísmo, a crise de fé na Europa, a politização da religiosidade nos EUA e a religião em países como Brasil, China e Índia.

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“Bento XVI serve como um pontífice
de transição que não quer impor uma
linha nova e abre portas, como a decisão
de controlar o problema da pedofilia”

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“Há um processo de globalização do islã. Imigrantes
da Turquia, da Argélia, do Paquistão, de repente,
são mais identificados como muçulmanos globais”.

ISTOÉ - Qual o futuro do catolicismo?

JOSÉ CASANOVA - Entre o protestantismo/pentecostalismo, o islã e o catolicismo – as três grandes religiões globais –, este último vem perdendo espaço e depende de como irá resolver as suas crises fundamentais envolvendo a igualdade das mulheres, o sacerdócio feminino e como irá reconstruir a sua moral sexual diante das transformações radicais da moralidade sexual nas sociedades. Não significa aceitar essas transformações, mas confrontá-las e dar uma nova alternativa moral aos problemas. Há um distanciamento entre a moral sexual das sociedades e a moral proposta pelo catolicismo. E sabemos que isso leva muitas mulheres a se afastar. E, quando uma mulher sai da igreja, a família deixa de ser cristã e os templos se esvaziam.

 

ISTOÉ - Qual será a herança do pontificado de Bento XVI?

JOSÉ CASANOVA - É um pontificado muito complexo. O de (Karol) Wojtila (João Paulo II) foi muito positivo, carismático, havia uma dinâmica na Igreja Católica, sobretudo nos países em desenvolvimento. Mas ele também era uma pessoa muito autoritária. (Joseph) Ratzinger (Bento XVI) é um teólogo mais técnico do que Wojtila e por isso tem menos sensibilidade à diversidade do catolicismo global. Serve como um pontífice de transição que não quer impor uma linha nova e abre algumas portas, como a decisão definitiva de controlar o problema da pedofilia.

 

ISTOÉ - Há uma onda de pessoas abandonando as religiões e mantendo a fé em espaços privados. Por quê?

JOSÉ CASANOVA - Durante 300 anos, os países europeus passaram por um processo de religiosidade (confessionalização), em que o Estado impôs a suas populações as religiões luterana, calvinista ou católica. Hoje, associa-se o Estado religioso e a igreja estatal a uma tradição muito velha, que vai contra a modernidade. O Brasil, com a modernização e o crescimento das classes médias, também passa por um processo parecido, embora atenuado, porque a modernidade tem a ver com a pluralização da religião. Na Europa, ou você pertence a uma religião/igreja ou sai dela de vez. Então, a secularidade aparece como a única alternativa à religião – é considerada um estágio mais avançado do que a religião.

 

ISTOÉ - Como o sr. enxerga o grupo dos crentes sem religião?

JOSÉ CASANOVA - Muitos não encontram nas comunidades religiosas uma experiência criativa, pessoal, que chame sua atenção. Essa gente não é agnóstica, tem uma identidade religiosa particular privada, um sincretismo pessoal. Assim, a pessoa pensa: “Sou católico e bebo do espiritismo, por exemplo, mas sem ser espírita.” É uma forma de crer sem pertencer, não ter filiação. Nos Estados Unidos, a religião foi de tal forma politizada que a sociedade se polarizou. Muita gente rejeita a forma como a religião se envolve com a política e pretende moldar toda a sociedade, inclusive pessoas sem filiação.

 

ISTOÉ - O sr. considera que as religiões ainda intervêm na esfera pública? O que elas ainda têm a dizer para as sociedades?

JOSÉ CASANOVA - O Estado europeu moderno nasceu em meio às guerras religiosas. A primeira medida foi tornar o Estado religioso e forçar todos a ter uma única crença para evitar a guerra civil. Aqueles que não queriam seguir a religião nacional deviam partir. Quando chegou a democracia, a religião saiu de cena do âmbito estatal, acompanhada da ideia da necessidade de a fé ser privada, para que a sociedade não se polarizasse. Nos Estados Unidos, há um outro tipo de privatização da religião, pois o Estado não reconhece oficialmente uma única crença e dá liberdade para que os cidadãos formem a denominação que quiserem. A religião é a mais política das instituições americanas, é o centro da vida política naquele país. Todos os movimentos sociais envolvendo a escravidão, o feminismo ou o aborto foram encabeçados pela religião.

 

ISTOÉ - A pluralidade religiosa, algo corriqueiro aqui no Brasil, também existe na Europa e nos EUA?

JOSÉ CASANOVA - A imigração inaugurou a diversidade cultural, étnica, racial e religiosa na Europa. A minoria religiosa que desponta na Europa é o islã, por razões étnicas, econômicas e seu passado colonial ante os países europeus. Além disso, ocorre um processo de globalização do islã. Os imigrantes chegaram da Turquia, da Argélia, do Paquistão, mas, de repente, são mais identificados como “muçulmanos globais” do que por sua origem nacional. O islã lhes garantiu uma unidade que não tinham. Nos Estados Unidos, os imigrantes muçulmanos são normalmente de classe média, eles têm nível educacional alto e estão economicamente integrados.

 

ISTOÉ - O desenvolvimento de países como China, Índia e Brasil traz quais consequências para as religiões?

JOSÉ CASANOVA - A China é uma sociedade que se modernizou à base de um processo estatal de destruição das religiões. Hoje, com o desenvolvimento econômico chinês, todas as religiões voltam a ressurgir. O caso chinês põe em questão a tese de que a modernização leva à secularidade. A secularização da China foi imposta pelo Estado e agora, com o desenvolvimento econômico, as religiões estão voltando. As religiões reconhecidas na China são minoritárias e oriundas de grupos étnicos não chineses: o islã, o budismo, o taoísmo, o catolicismo e o protestantismo. Estão sendo inaugurados departamentos de antropologia e sociologia nas universidades chinesas, de estudos da religião, o que não havia antes. A Índia, porém, sempre foi muito religiosa. Ela concluiu que, para competir com o Ocidente e se livrar do colonialismo, teria de usar seu componente de fé. São duas respostas anticoloniais bem diferentes: uma enxerga a religião como um obstáculo e a outra a vê como uma ajuda.

 

ISTOÉ - E o Brasil?

JOSÉ CASANOVA - O Brasil se converteu em um centro mundial de catolicismo global, de pentecostalismo global e de movimentos afro-americanos globais. O Brasil está surgindo como potência econômica global, mas também está surgindo como potência religiosa nessas três religiões.

 

ISTOÉ - No Brasil, além do grupo dos católicos não praticantes, assistimos ao crescimento dos pentecostais não praticantes. Haveria um mesmo motivo para esses dois fenômenos?

JOSÉ CASANOVA - É um mesmo processo. O individualismo é o princípio mais importante da formação da religião de uma pessoa no mundo moderno. Só tem vitalidade aquela religião que permitir uma escolha individual livre. Quando a religião é uma experiência imposta, pela instituição ou pela família, leva o indivíduo a querer livrar-se dela. Quando o catolicismo se converte simplesmente em uma identidade formal que não confere nenhuma motivação pessoal ao indivíduo, muitos deixam de ser praticantes, tornam-se católicos formais e ocasionalmente podem converter-se a outra religião ou até serem agnósticos e antirreligiosos. À medida que o pentecostalismo se torna mais institucionalizado e surgem novas gerações, esse processo também se dará.

 

ISTOÉ - Para estar antenado à modernidade é preciso ser secular?

JOSÉ CASANOVA - Na Europa se pensava que a secularidade era um estágio superior à religião. Abandonar uma religião era simplesmente uma condição natural humana. Então, lá, ser secular é considerado algo natural, e ter religião é tido como artificial. Historicamente, o homem amadurecia, tornava-se mais sábio, mais livre e via a religião como algo desnecessário. Essa ideia muito europeia nunca pegou nos Estados Unidos. Os americanos relacionaram sua experiência de modernidade ao renascimento religioso. A religião aparece como uma afirmação da identidade americana sobre o colonialismo do Ocidente. Lá, estamos condenados a ser livres, mas também a renascer religiosamente.

ISTOÉ - O que é ser ateu no mundo globalizado?

 

JOSÉ CASANOVA - Há uma anedota na Irlanda do Norte que diz que um cidadão, ao atravessar a zona protestante em direção à católica, é abordado: “Mãos para cima. Você é protestante ou católico?” O cidadão respondeu: “Sou ateu.” A indagação seguinte foi: “Mas qual tipo de ateu: protestante ou católico?” É o contexto que define o que significa ser ateu. Na Europa, ser ateu é normal para um jovem, que não precisa fazer nada para se encontrar nessa situação, não precisa dialogar, refletir. É algo natural, espontâneo. Por outro lado, para ser religioso ele tem de fazer algo. Na América é o contrário. Ser ateu exige uma coragem enorme, ser contra toda a sociedade. É estar continuamente lutando e defendendo a sua oposição diante de todos. Uma pesquisa mostrou que nos Estados Unidos o cidadão afirma que votaria em qualquer religioso, até em um muçulmano, mas jamais em um ateu.

 

ISTOÉ - As pessoas são mais felizes quando têm ou não uma religião?

JOSÉ CASANOVA - Existe uma ciência da felicidade, uma economia da felicidade, uma psicologia da felicidade, que para mim são ciências absurdas. Sou um sociólogo comparador histórico que não crê nessas coisas. É verdade que toda religião orienta o indivíduo para uma realidade transcendente. Isso facilita a ele se relacionar com os outros. Mas as religiões também podem nos tornar mais egoístas, obcecados por nossa salvação. A resposta a essa pergunta é: depende.

 

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jan 25

Especialização em Ciências da Religião para Educação Religiosa – UNICAP

INSCRIÇÃO – até 30/01/2012
INÍCIO DAS AULAS – 02/03/2012

CARGA HORÁRIA
360 horas

OBJETIVO
Contribuir com o processo de formação continuada de educadores(as), pelo aprofundamento de conhecimentos relativos ao Fenômeno Religioso, à Pluralidade das Religiões e aos Fundamentos do Ensino Religioso. O curso será ministrado por professores e egressos do Mestrado em Ciências da Religião.

PÚBLICO-ALVO
Graduados da área de Ciências Humanas, bem como profissionais de outras áreas interessados no serviço de orientação religiosa em escolas confessionais e públicas. Poderá interessar especialmente a professores(as) que desejam melhor se capacitar para o trabalho no Ensino Religioso.

NÚMERO DE VAGAS
40 alunos

DURAÇÃO DO CURSO
14 meses

AULAS
Sexta-feira: das 18h às 22h
Sábado: das 8h às 13h
Bloco G4 da UNICAP – Sala climatizada, com projetores e TV.

COORDENAÇÃO
Cláudio Vianney Malzoni, Doutor em Ciências Bíblicas: Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém / Israel
Valter Luís de Avellar, Mestre em Ciências da Religião: UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco / PE

INSCRIÇÃO 
1.Preencher o formulário de inscrição disponível no site
2.Imprimir o comprovante de inscrição
3.Anexar os documentos abaixo e entregar na Secretaria dos Cursos de Especialização – Rua Almeida Cunha, 245 – 3° andar – sala 304, bloco G IV, Boa Vista, Recife/PE. Fone: (81) 2119.4134, no seguinte horário: 14h às 17h30min e 18h às 20h30min; sábado, das 8h às 11h30.

DOCUMENTAÇÃO NECESSÁRIA PARA INSCRIÇÃO
Currículo Vitae
Cópias autenticadas do Diploma de Graduação, Identidade e CPF
Uma foto 3×4

SELEÇÃO
Análise da documentação apresentada
Entrevista com o candidato, caso necessário

INVESTIMENTO
Não será cobrada taxa de inscrição
14 parcelas: R$ 295,00 sem reajuste. A primeira parcela deverá ser paga no ato da matrícula.

Mais informações e inscrições aqui
Ps.: A Universidade Católica de Pernambuco está concedendo desconto de 10% nos cursos de Especialização para ex-alunos da graduação ou pós-graduação. Será concedido 10% de desconto também ao aluno que adiantar o pagamento integral das Especializações.
 

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jan 12

Um reencontro com o povo brasileiro.

Entrevista com o Pe. Vito Miracapillo. Fonte IHU

“Vou voltar para a Diocese de Palmares. Quanto à paróquia, é o bispo quem vai decidir”, afirma o padre ao retornar ao Brasil.

Foto: Leo Caldas

Expulso do país há 30 anos com a acusação de ter se recusado a celebrar uma missa em homenagem ao Dia da Independência, o padre italiano Vito Miracapillo está de volta ao Brasil, disposto a reassumir a Diocese de Palmares, em Pernambuco. Enquanto resolvia os trâmites para garantir sua permanência no país, ele aceitou conceder a entrevista a seguir por e-mail, em que esclarece quais foram as razões que deram origem a sua expulsão. “Os verdadeiros motivos que geraram a minha expulsão foram o trabalho pastoral que desenvolvia com o povo e o apoio que a paróquia ofereceu aos camponeses quanto ao direito à posse da terra na questão da Usina Caxangá”, afirma Miracapillo em entrevista, por email, concedida à IHU On-Line..

Depois de viver os últimos 30 anos na Itália, onde atuou como diretor da pastoral missionária diocesana, Miracapillo avalia que “com a passagem para a democracia, houve uma melhora na vida do povo e mudança no exercício do poder e nas estruturas públicas”. Em relação à ditadura militar, que perdurou no país de 1964 a 1985, e a abertura dos arquivos secretos, ele é enfático: “É necessário que o Brasil, assim como outros países já fizeram, tenha a coragem civil e democrática de conhecer, pelo respeito devido às vítimas, a seus familiares e às instituições do país, o que se passou naquele período histórico e faça triunfar aí a justiça”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor foi expulso do país há trinta anos por não aceitar celebrar uma missa em homenagem ao Dia da Independência. Lembra desse dia?

Vito Miracapillo – Lembro sim, mas aquela motivação só foi pretexto do poder e da ditadura, pois negamos uma missa imposta. No domingo, celebrei três missas pela Independência e não podia celebrar outra do jeito que queriam. Além disso, os verdadeiros motivos que geraram a minha expulsão foram o trabalho pastoral que desenvolvia com o povo e o apoio que a paróquia ofereceu aos camponeses quanto ao direito à posse da terra na questão da Usina Caxangá.

IHU On-Line – Como reagiu ao receber a notícia de que seria expulso do país? Qual foi seu sentimento? O senhor sofreu algum tipo de perseguição política?

Vito Miracapillo – Com muita serenidade, mesmo sofrendo, pois sabia que aquele era o preço a
pagar para a transformação da realidade da Zona da Mata Sul. O sentimento maior foi de compaixão pelo povo oprimido, empobrecido e excluído e por não podermos juntos continuar aquele trabalho de transformação pacífica, profunda e real que estávamos levando adiante com os colaboradores leigos, os grupos da paróquia e as comunidades do campo. A perseguição se deu pelo poder econômico da área, que, muito ante da missa imposta, estava preparando a minha expulsão junto com autoridades, capangas e soldados.

IHU On-Line – Como era a relação da Igreja com os militares no período ditatorial?

Vito Miracapillo – Muito crítica, principalmente depois da imposição ao país do estatuto dos estrangeiros, que visava a expulsão de missionários católicos e de refugiados políticos do cone sul da América Latina. Essa medida foi criticada por João Paulo II, quando visitou o país, em julho de 1980. Eu me tornei a primeira vítima.

IHU On-Line – Como a Igreja brasileira se posicionou em relação à sua expulsão do país?

Vito Miracapillo – Como um corpo só, unida e firme a meu favor. Junto com a Igreja, a grande maioria do povo brasileiro tomou posição contra a ditadura e me acompanhou com grande solidariedade até sair do país.

IHU On-Line – Como foi sua acolhida na Itália e como a Igreja italiana se posicionou diante do caso? Houve alguma repercussão internacional?

Vito Miracapillo – A acolhida na Itália foi em tom muito menor, porque por parte da Igreja temia-
se pelos outros padres que aqui trabalhavam e, por outro lado, os interesses econômicos existentes entre os dois países levou a silenciar o caso.

IHU On-Line – Hoje o Brasil é mais independente do que naquela época? Em que aspectos o Brasil continua dependente, e de quem?

Vito Miracapillo – A minha afirmação de que o povo não era independente não era em relação
independência histórica do Brasil no conjunto das nações, mas sim no que se refere à situação de exclusão e opressão em que o povo vivia e à falta de respeito de seus direitos humanos, civis, trabalhistas.

IHU On-Line – Que atividades desenvolveu nos últimos 30 anos na Igreja italiana?

Vito Miracapillo – Desde que cheguei, o bispo me nomeou pároco e, sendo pároco, me nomeou também diretor da pastoral missionária diocesana. Do ano 2000 até hoje sou diretor da Pastoral Social Diocesana e do setor de Justiça e Paz, assim como do de Preservação do Meio Ambiente.

IHU On-Line – Quais as diferenças e aproximações entre a Igreja brasileira e a italiana?

Vito Miracapillo – As diferenças são mais devidas à extensão do território, ao número de operadores pastorais (padres, religiosos, freiras, pessoas engajadas), às estruturas e recursos econômicos, à cultura e ao tipo de sociedade do que à própria vida interna da Igreja. São muitas as afinidades existentes desde a liturgia até a vida da caridade.

IHU On-Line – O senhor acompanhou a situação política, econômica e social do Brasil ao longo desses 30 anos? Como analisa a posição política do Brasil em relação à ditadura militar e a resistência em abrir os arquivos históricos daquela época?

Vito Miracapillo – Por certo, com a passagem para a democracia, houve uma melhora na vida do povo e mudança no exercício do poder e nas estruturas públicas. Quanto à ditadura, é necessário que o Brasil, assim como outros países já fizeram, tenha a coragem civil e democrática de conhecer, pelo respeito devido às vítimas, a seus familiares e às instituições do país, o que se passou naquele período histórico e faça triunfar aí a justiça.

IHU On-Line – Como avalia a permanência de Severino Cavalcante no cenário político brasileiro ao longo desses 30 anos?

Vito Miracapillo – A avaliação pertence ao povo brasileiro e à sua educação política.

IHU On-Line – Como foi seu encontro com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB)?

Vito Miracapillo – Muito acolhedor e amigável. Um momento para agradecer a ajuda que deu para a revalidação de meu visto de permanência.

IHU On-Line – Qual sua expectativa ao retornar para o Brasil? Pretende reassumir a paróquia de Ribeirão, em Pernambuco?

Vito Miracapillo  Vou voltar para a Diocese de Palmares. Quanto à paróquia, é o bispo quem vai decidir.

 

 

 

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dez 22

Feliz Natal e um Próspero Ano Novo amig@s

Um feliz natal e próspero ano novo aos amig@s novos e antigos, ao lado de um Jesus mais humano e menino.
Um grande beijo no coração de tod@s…

Poema do Menino Jesus

Fernando Pessoa
Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer à Terra. Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez menino, a correr e a rolar-se pela erva a arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a ouvir-se de longe. Ele tinha fugido do céu. Era nosso demais pra fingir-se de Segunda pessoa da Trindade. Um dia que DEUS estava dormindo e o Espírito Santo andava a voar, Ele foi até a caixa dos milagres e roubou três. Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que Ele tinha fugido; com o segundo Ele se criou eternamente humano e menino; e com o terceiro Ele criou um Cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado na cruz que há no céu e serve de modelo às outras. Depois Ele fugiu para o Sol e desceu pelo primeiro raio que apanhou. Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança bonita, de riso natural. Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças d’água, colhe as flores, gosta delas, esquece. Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares, e foge a chorar e a gritar dos cães. Só porque sabe que elas não gostam, e toda gente acha graça, Ele corre atrás das raparigas que levam as bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia. A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas. Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda. Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas no degrau da porta de casa. Graves, como convém a um DEUS e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o Universo e fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair no chão. Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos homens. E Ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios. Depois Ele adormece e eu o levo no colo para dentro da minha casa, deito-o na minha cama, despindo-o lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo materno até Ele estar nu. Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de pena pro ar, põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho, sorrindo para os meus sonhos. Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu brincar.

http://www.youtube.com/watch?v=gWI1gs0dJYk

 

 

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dez 10

Envie o seu artigo hoje para a revista Paralellus

A Revista Paralellus (ISSN 2178-8162), do Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP, convida pesquisadores dos Programas de Pós-graduação em Ciências da Religião a enviarem trabalhos, até 31 de dezembro de 2011, para elaboração do seu terceiro número. Você pode conhecer melhor a revista e baixar os números anteriores no site: http://www.unicap.br/paralellus.

Em breve a publicação estará com todo o seu processo no formato eletrônico. Enquanto isso, para submissão de trabalhos, que devem ser originais, pode-se usar o e-mail: revcr@unicap.br. Os temas devem ser desenvolvidos na forma de Comunicações ou Ensaios (até 15 laudas) e Resenhas (até 4 laudas). Além de enviar o artigo por e-mail, baixar o Termo de Autorização na página da revista e enviar preenchido e assinado para o endereço postal indicado.

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dez 10

RELIGIÃO, CARISMA E PODER

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